O que são ações: o guia completo do verdadeiro sócio
Quando a maioria das pessoas pensa em investir em ações, pensa em especulação, volatilidade e risco. Pensa em alguém na frente de três monitores, gritando “compra, compra, vende!” enquanto o mercado oscila.
Essa imagem não poderia estar mais errada — e é exatamente ela que afasta a maioria dos brasileiros de um dos melhores investimentos de longo prazo que existem. Então, o que são ações de verdade? Nesse artigo, vou te mostrar como analisá-las e por que elas têm um lugar insubstituível em qualquer carteira bem construída.
Como investir em ações?
Bom, investir em ações é menos complicado do que parece.
Você vai precisar de uma conta em uma corretora — o processo é feito online e leva menos de 15 minutos. Depois disso, transfere o dinheiro, acessa o home broker e já pode comprar sua primeira ação.
Sobre o valor mínimo, há papéis por menos de R$ 10 — aliás, essa é a última vez que você vai ler “papéis” se referindo a ações nesse texto, pois esse termo é terrível e você vai entender o porquê.
”Papéis”
Quando você fala “papel” para se referir a uma ação, passa a ideia de algo passageiro, descartável, sem qualquer importância. Como se você estivesse comprando um recibo e não um pedaço de uma empresa real, com funcionários, estrutura, histórico, projetos, modelo de negócio.
Imagem gerada pelo ChatGPT
Ao comprar uma ação, você está se tornando sócio de uma empresa. Isso não é da boca pra fora. É literal — você passa a ser acionista de um negócio multimilionário e começa a se beneficiar do seu crescimento.
E pensa comigo: imagine que você é dono de um restaurante… E esse restaurante sempre te deu uma boa margem de lucro. A não ser que aconteça algo muito fora da realidade, você não vai querer se desfazer dele só porque tem alguém interessado em comprá-lo — afinal, ele te deu, ao longo dos anos, um retorno valioso.
Com suas ações, a ideia deveria ser a mesma: você não deve pensar em se desfazer de um bom negócio o tempo todo, só porque alguém falou que tá muito caro ou que vai surgir uma crise nos próximos meses, pois bons ativos, mesmo em períodos turbulentos, tendem a dar excelentes retornos por períodos muito longos.
Poderia citar aqui Coca-Cola, Amazon, Porto Seguro, Itaú Unibanco, Weg, Engie, enfim, uma infinidade de bons negócios que deram retornos realmente consideráveis, mesmo em tempos difíceis.
Enfim, ações não são papéis, são negócios, robustos, lucrativos, duradouros.
Qual a função das ações em uma carteira de investimentos?
Vamos fazer uma analogia com um tema que o brasileiro é apaixonado: futebol.
Podemos dividir uma carteira de investimentos em três partes: setor defensivo, meio-campo e setor ofensivo.
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Setor defensivo: aqui, você precisa ter uma parte da sua carteira que segure o placar nos momentos difíceis. Esse papel é muito bem desempenhado pela renda fixa, trazendo segurança, baixa oscilação, previsibilidade e proteção do seu poder de compra.
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Meio-campo: a função do meio-campo é conectar da melhor forma possível ataque e defesa — ou seja, tem características de segurança, mas também tem seu destaque e jogadas incríveis. Aqui, os FIIs se saem bem: rendimentos mensais previsíveis, exposição imobiliária, consistência, e alguns trazem retorno até superior ao das ações.
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Setor ofensivo: no ataque é onde o futebol mostra seu brilho, jogadas incríveis, talento individual, e o mais importante de tudo: gols. Trazendo pro universo dos investimentos, esse setor da sua carteira é composto majoritariamente pelas ações: são mais instáveis, mas, se bem analisadas, podem trazer retornos bem superiores aos da renda fixa.
No longo prazo, nenhuma outra classe de ativo entrega retornos como as ações de boas empresas. Nenhuma.
Livro: Investindo em Ações no Longo Prazo - Jeremy Siegel
No gráfico acima, que expõe a realidade da Bolsa Americana, podemos ver o quão diferente é o retorno da ações, comparando com outras classes de ativo.
No Brasil, por mais que o Ibovespa seja um índice problemático, boas ações brasileiras também tem uma valorização superior frente a outros ativos.
As ações, sejam brasileiras ou não, são o componente da sua carteira que vai multiplicar seu patrimônio de forma expressiva — desde que você tenha paciência e disciplina pra passar pelos momentos de incerteza, que certamente vão surgir ao longo de sua jornada.
Como a empresa que estou analisando faz dinheiro?
Antes de qualquer número, saber como analisar ações começa com uma pergunta básica que a maioria dos investidores ignora:
Como essa empresa ganha dinheiro?
Parece óbvio. Não é.
Entender como a empresa que você escolheu faz dinheiro te faz entender melhor aquele negócio como um todo — inclusive pra saber o que está acontecendo em momentos de crise e como você deve agir.
- As Lojas Renner ganham dinheiro expandindo lojas físicas, trabalhando com marcas e fabricação própria;
Fonte: Investidor10
Já que a atuação da empresa sempre foi focada em lojas físicas, principalmente em shopping centers, podemos entender o motivo pelo qual o lucro da empresa ter caído de 1,1 bi em 2020 pra 630 mi em 2021, já que os grandes centros comerciais, principalmente shoppings, foram fechados durante a pandemia.
- A Raia Drogasil abre farmácias — cada vez mais, em cada vez mais lugares;
Fonte: Investidor10
Na Raia Drogasil, houve queda nos lucros também em 2020. Mesmo a empresa vendendo medicamentos na mesma quantidade — e até maior — produtos de beleza e higiene pessoal (que têm altas margens) tiveram queda relevante nas vendas, o que afetou os lucros no período. Além disso, por ser estabelecimento de saúde, a rede aumentou muito os gastos com proteção e segurança, como álcool em gel, máscaras etc.
- A Vale extrai minério de ferro e exporta pro mundo inteiro;
Fonte: Investidor10
A Vale já teve fenômeno inverso — saiu de um prejuízo em 2019 (provisões pra pagamento de indenizações pelo rompimento da barragem de Brumadinho), pra uma explosão de lucros em 2021 — na pandemia, ocorreu um “boom” das commodities e a Vale surfou bem essa valorização do minério de ferro.
- O Itaú Unibanco empresta dinheiro e cobra juros.
Fonte: Investidor10
O Itaú teve uma queda de mais de 45% dos seus lucros em 2020, pois precisou fazer uma provisão contra calotes (PDD) muito agressiva em 2020, também por conta da pandemia, mas em 2021 a situação voltou a se normalizar.
O motivo de eu trazer esses dados aqui não é mostrar pra você o meu “grande conhecimento” em análise de ações — que nem é tão grande assim — mas sim fazer você entender que cada modelo de negócio tem suas características, seus riscos, seus ciclos.
Entender isso é o ponto de partida de qualquer análise decente — e você consegue descobrir em 10 minutos no site de Relações com Investidores da empresa ou em plataformas como o Status Invest ou Investidor10.
Se você não consegue explicar em duas frases como uma empresa ganha dinheiro, você não deveria ser sócio dela.
Setores no mercado de ações
Sobre setores, a B3 tem hoje mais de uma dezena de setores e vários subsetores. A classificação oficial da bolsa é confusa — no “consumo cíclico”, por exemplo, cabem hotéis e construtoras no mesmo bolo.
Então, vou usar uma classificação mais prática, com os setores que realmente importam pra quem quer entender a lógica:
- Bancos e seguradoras;
- Holdings;
- Máquinas e equipamentos;
- Alimentação e bebidas;
- Supermercados;
- Energia elétrica;
- Saneamento;
- Telefonia;
- Saúde;
- Educação;
- Construção civil;
- Commodities;
- Agropecuária;
- Varejo;
- Tecnologia;
- Aéreo;
- Locação de imóveis.
Tudo que não estiver dentro dessas 17 categorias, o número de empresas naquela área não justifica separar em categoria — como é o caso da CVC Brasil (CVCB3), única empresa de viagens da B3.
Com o passar do tempo e com muito estudo, você vai percebendo quais os setores mais complicados — como o setor de educação — e quais os setores com empresas mais estáveis — como o de energia elétrica.
Estude cada um deles e use essa classificação como um ponto de partida.
Setores cíclicos e de commodities
Falando em setores cíclicos e, principalmente de commodities, estes merecem atenção uma especial — não pra evitar, mas pra dimensionar a exposição com cuidado.
Empresas como Vale, Petrobras, Klabin e também do agronegócio têm ciclos muito bem marcados: sobem muito quando o cenário favorece e caem muito quando não favorece. O preço do minério, do petróleo, do grão — tudo isso foge do controle da empresa e do investidor.
Fonte: Investidor10
Isso não torna essas empresas investimentos ruins. Pelo contrário, algumas são ótimos negócios no longo prazo.
Mas exigem paciência acima da média e uma exposição controlada na carteira. Se você está começando, não concentre demais aqui.
Empresas estatais ou com alta regulamentação
Uma frase muito comum entre investidores de ações é essa — “eu não invisto em estatais!”.
E eu concordo com o argumento deles, pois no Brasil há uma imprevisibilidade jurídica e econômica muito grande — sem contar o fato de que o Governo pode mudar as regras do jogo quando bem entender.
Mas, mesmo entendendo isso, é possível identificar excelentes negócios estatais ou com regulamentação maior do Estado — e isso não deve ser ignorado.
Posso citar, por exemplo, Banco do Brasil, Petrobras, empresas do setor elétrico, saneamento, telecomunicações — todas elas e mais algumas — têm um controle maior do Estado e ainda assim trouxeram excelentes retornos até o momento, mesmo passando por períodos de crise política.
Fonte: Investidor10
Ou seja, são muitas boas empresas pra você ignorar. E algumas delas estão se mostrando excelentes negócios e têm lugar numa boa carteira.
Mas, minha recomendação é limitar essa exposição a no máximo 25% a 30% do total em ações. Acima disso, você estará colocando parte demais do seu patrimônio nas mãos de decisões políticas.
Governança
Analisar governança é, em parte, subjetivo. Dois analistas podem olhar para a mesma empresa e chegar a conclusões totalmente diferentes, até opostas. Mas há alguns fatores que, pra mim, são inegociáveis — e outros que são apenas diferenciais.
Vamos ver alguns deles.
Segmento de listagem
Toda empresa entra na B3 no segmento tradicional. Mas algumas adotam voluntariamente práticas mais rígidas de governança, entrando no Novo Mercado, N1 ou N2.
Isso não é garantia de que a empresa é boa ou lucrativa. Mas significa que ela adota regras mais claras de proteção ao acionista minoritário — e que as chances de você ser prejudicado por condutas desleais diminuem.
Minha recomendação é que a maioria da carteira esteja em empresas do Novo Mercado, N1 ou N2 — segmento tradicional é a exceção da exceção.
Tag along
Tag along é o direito que você tem, como acionista minoritário, de vender suas ações pelo mesmo preço que o controlador receberia numa eventual venda da empresa (fenômeno chamado de OPA — Oferta Pública de Aquisição).
Sem tag along, o controlador pode vender a empresa a R$ 50 por ação enquanto você fica preso a R$ 20 no mercado.
Meu parâmetro mínimo é 80% de tag along. Nas ONs isso já é garantido por lei (art. 254-A da Lei das SAs), mas em PNs e UNITs, dependendo do segmento de listagem, o tag along só existe se a empresa conceder — e muita empresa não concede ou concede valores menores.
Abaixo de 80% (ou zero, como é comum em PNs de empresas do segmento tradicional), a empresa demonstra que não tem o mínimo interesse em ser leal com o minoritário.
ON, PN e UNIT
Aqui tem um ponto que eu levanto sempre e que pouca gente discute com honestidade.
ON (Ordinária): é a ação de verdade. Dá direito a voto, direito a tag along, direito de participar das decisões relevantes da empresa. Se você quer ser sócio de verdade, essa é a única escolha.
PN (Preferencial): costuma ser vendida com o argumento de que paga dividendos maiores ou com prioridade. Mas, na verdade, você está abrindo mão do direito a voto e de outros direitos básicos do acionista, em troca de uma suposta “vantagem” — que na prática não existe.
A empresa que oferece ações preferenciais aos montes e ordinárias em número reduzido passa uma mensagem clara — “eu não quero sócios, quero financiadores dos meus projetos”.
UNIT: não é tecnicamente uma ação, mas sim um pacotão que, na maioria das vezes, mistura ONs e PNs numa única cesta. Em muitos casos, a empresa cria UNITs para empurrar PNs a um investidor que só queria ON — o que revela uma governança pouco alinhada com o sócio minoritário.
Quando isso acontece, fica ainda mais claro que a empresa quer financiadores, não sócios.
Por mais que eu pareça um tanto quanto extremista, a verdade é que se você quiser ser sócio de empresas, deve optar apenas por ONs.
Free float e capital concentrado
Antes de mais nada, um esclarecimento: matematicamente, free float e capital concentrado são o mesmo número olhado por ângulos opostos. Se 20% das ações estão em livre circulação, significa que 80% estão concentrados nas mãos dos controladores. É a mesma moeda, com dois lados diferentes.
Mas conceitualmente, são duas análises diferentes, porque cada uma responde a uma pergunta distinta.
Free float responde à pergunta: “eu consigo comprar e vender essa ação sem problema?” — É a análise de liquidez. Quanto mais ações disponíveis no mercado, mais fácil é encontrar comprador quando você quer vender, e vendedor quando você quer comprar.
Um free float muito baixo significa pouca gente negociando aquele ativo — e isso cria um problema prático: você pode querer sair da posição e não conseguir na hora que precisar.
Capital concentrado responde a outra pergunta: “quem manda nessa empresa?” — É a análise de poder de decisão. Quando o controle está muito concentrado em uma pessoa ou grupo, todas as decisões relevantes — troca de gestão, fusões, aquisições, política de dividendos — passam pela vontade desse grupo.
Com o capital mais pulverizado, o peso do controlador diminui e o acionista minoritário tem mais relevância nas assembleias.
Então, mesmo refletindo o mesmo número, você precisa fazer leituras separadamente:
- Como investidor que quer liquidez: olhe o free float (e, no meu caso, especificamente o free float das ONs);
- Como investidor que quer entender a dinâmica de poder da empresa: olhe a concentração de capital e quem são os controladores.
Vou dar um exemplo prático: Itaú Unibanco (ITUB3).
Das ONs existentes, quase 91% é de controle de duas holdings do Grupo Itaú (IUPAR e Itaúsa); e cerca de 9% está disponível no mercado.
Pela óptica do capital concentrado, é uma empresa bem concentrada — duas holdings mandam no banco. Pela óptica do free float, apesar de serem “só” 9%, estamos falando de 9% de mais de 5 bilhões de ONs — ou seja, liquidez mais que suficiente pra você comprar e vender sem dor de cabeça.
Em relação ao capital concentrado, não tem certo ou errado. Você, como investidor, tem que decidir se aceita a concentração de poder — no caso do Itaú, eu aceito, porque o controle está nas mãos de quem tem décadas de histórico gerindo bem o negócio.
Como parâmetro de liquidez, números muito abaixo de 5% disponíveis a mercado em ONs, começa a ficar complicado.
RI, clareza e comunicação
RI significa Relação com Investidores. Ou seja, são os canais de comunicação e transparência entre a empresa de capital aberto e seus acionistas.
Esse tópico também não é um critério eliminatório, mas é um diferencial que revela muito sobre a cultura da empresa.
Um site de RI limpo, com releases objetivos, balanços claros e que responde às perguntas dos minoritários diz muito sobre a gestão.
Fonte: RI da Weg
Empresa que esconde informação, que publica relatórios confusos ou que ignora o acionista minoritário é empresa que não quer ter sócios, somente financiadores.
Análise fundamentalista de ações: o que realmente importa
Agora sim, vamos finalmente aos números — que é o que eu acho que você realmente queria.
Antes de entrarmos propriamente nos números, quero deixar bem claro uma coisa: eu prego o máximo de simplicidade em análise de ativos, então, a ideia aqui é fazer você entender a lógica, mas não quer dizer que você terá que abrir balanços contábeis diariamente pra fazer boas análises — pelo contrário, menos é mais.
Vamos começar a entender os principais demonstrativos, mas, calma, você não vai precisar se tornar um contador pra isso.
Demonstrativos — Balanço patrimonial, DRE e DFC
Cada demonstrativo financeiro representa uma coisa específica.
Nos exemplos, vamos usar os demonstrativos de uma empresa que acho que todos conhecem, a Vivo - Telefônica Brasil:
- O balanço patrimonial mostra o que a empresa tem e o que deve.
Fonte: RI da Vivo - Telefônica Brasil
- O DRE (Demonstrativo de Resultado do Exercício) mostra toda a estrutura de receita da empresa, despesas administrativas, vendas, custos, impostos, até responder se ela está gerando lucro ou não.
Fonte: RI da Vivo - Telefônica Brasil
- O DFC (Demonstrativo de Fluxo de Caixa) mostra como está o caixa da empresa, o que ela está efetivamente recebendo e desembolsando naquele período.
Fonte: RI da Vivo - Telefônica Brasil
Na prática, 99% das vezes você vai recorrer a plataformas como Investidor10 ou Status Invest pra analisar esses números — e isso é totalmente válido.
O que essas plataformas fazem é pegar os demonstrativos, organizar o histórico longo e apresentar de forma visual — e é justamente esse histórico visual que nos interessa.
Ah, só pra não esquecer, existem outros demonstrativos também, mas citei apenas os mais relevantes.
Lucro líquido
O lucro líquido é o número mais simples e que tem a maior relevância quando falamos em análise de empresas — a ideia é simples: a empresa tem sua receita de vendas, retira todas as despesas, custos, impostos (como no exemplo do DRE acima) e, ao final o que sobra é o lucro líquido.
Uma empresa que cresce — ou ao menos mantém — lucro de forma consistente por 10, 15, 20 anos é o modelo de negócio que estamos buscando.
Fonte: Investidor10
Uma empresa que oscila muito, que apresenta prejuízo recorrente ou que depende de eventos extraordinários pra fechar no positivo não é o que queremos.
Fonte: Investidor10
A diferença entre uma empresa lucrativa e uma empresa que dá prejuízo é notável — não preciso nem dizer que você deve selecionar empresas que apresentam bons lucros, como na primeira imagem; e fugir das que oscilam muito, como na segunda.
Patrimônio líquido
O patrimônio líquido são os bens (ativos) que pertencem à empresa após subtrair todas as dívidas (passivos).
Um patrimônio líquido crescente — ou ao menos constante — no longo prazo é sinal de que a empresa está acumulando ou mantendo valor ao longo dos anos.
Fonte: Investidor10
Um patrimônio líquido decrescente ao longo dos anos significa que a empresa está se desfazendo de seus bens (ou aumentando seu endividamento), o que pode significar problemas no negócio ou uma reestruturação que precisa ser acompanhada de perto.
Fonte: Investidor10
Particularmente, se eu percebo que a empresa está diminuindo patrimônio líquido de forma recorrente (pelo menos 5 anos), já ligo o alerta.
Endividamento
Se pra mim e pra você, dívida é sempre ruim — evite dívidas ao máximo — pra empresas de grande porte e, como é o foco aqui, de capital aberto, dívida nem sempre é algo ruim — pelo contrário, essas empresas se beneficiam de dívidas, pois conseguem taxas de empréstimo atrativas e ainda diminuem a base de cálculo de pagamento de impostos.
Entretanto, isso não significa que a empresa deve fazer dívida a qualquer custo, nem se alavancar além do aceitável — deve haver um equilíbrio entre a vantagem que a dívida trará e a possibilidade de a empresa honrar esse compromisso, sem afetar sua operação — a busca desse equilíbrio cabe à gestão da empresa, não a nós.
Sobre o histórico de dívida líquida em si, ele sozinho não é muito eficaz para a nossa análise, pois devemos comparar a dívida com o lucro operacional que a empresa gera, pra sabermos se há endividamento excessivo ou não.
Pra essa função, temos um ótimo indicador, que é o DÍVIDA LÍQUIDA / EBITDA.
Esse indicador mede justamente o endividamento da empresa em relação à sua potencial geração de caixa operacional.
Fonte: Investidor10
Na imagem acima, o indicador apresentou recentemente o número 0.53. De forma simples: quer dizer que a Vivo precisa de meio ano gerando o mesmo caixa operacional de hoje para pagar toda sua dívida.
Normalmente, o mercado aceita as seguintes métricas:
- Negativo (desde que a empresa tenha gerado lucro operacional, não prejuízo): empresa tem mais caixa atualmente do que dívida;
- Até 1x: dívida totalmente equilibrada;
- Entre 1 e 2x: levemente endividada, mas tudo dentro do controle;
- Entre 2 e 3x: empresa mais alavancada, mas ainda dentro da normalidade;
- Acima de 3x: dívida alta.
Quero deixar claro aqui que isso são parâmetros, não verdades absolutas. Ou seja, se a empresa que você tem na carteira sempre trabalhou com um endividamento de 1,5 e, em determinado ano, subiu pra 3,2x, não é motivo pra desespero. Às vezes é algo pontual, um projeto audacioso, uma geração de caixa abaixo do esperado, enfim, análise de empresas não é em linha reta, situações controversas podem (e vão) aparecer.
Ainda, alguns setores, como o de energia elétrica, por terem uma previsibilidade de receita maior, se dão ao luxo de trabalharem um pouco mais alavancadas — e isso é totalmente normal.
Enfim, essa análise de endividamento é uma análise acessória, pra ficarmos longe de buchas — mas a gestão da dívida, repito, cabe à empresa, não a nós.
Demais indicadores de ações
Eu vou ser bem sincero aqui: eu tenho muitos problemas com indicadores de mercado que a gente vê por aí.
Na minha visão de investimentos, se você entender como uma empresa gera valor, entender minimamente de governança, e saber avaliar como está a evolução de lucro, patrimônio e endividamento da empresa, você estará pronto para investir e ter uma boa carteira de ações.
Vamos falar dos principais.
P/L
Preço sobre Lucro.
Divide o preço da ação (atual) pelo lucro por ação (do ano anterior) e te diz, de forma simplificada, quantos anos de lucro você está pagando pela empresa hoje — quanto maior o P/L, mais “cara” a ação; quanto menor, mais “barata”.
A primeira crítica que eu faço: qualquer indicador que leva em consideração o preço é problemático.
Explico.
O preço do indicador é o atual, de hoje. Mas o lucro é passado, já ocorreu, e as situações lá atrás eram outras. Ainda, qualquer acontecimento presente, como “a guerra do Irã”, vai mudar o preço da ação, dando a impressão que você está pagando barato — mas, na verdade só está assumindo um risco maior, pois o mercado precifica ações também com base em cenários macroeconômicos.
A segunda crítica é que empresas boas costumam a ser negociadas a múltiplos altos, justamente por serem boas.
Via de regra, na maior parte do tempo:
- Empresa boa é negociada a um P/L alto;
- Empresa ruim ou em situação ruim é negociada a um P/L ruim.
Em resumo, se você comprar só P/L baixo, vai ter a maioria da sua carteira composta de negócios ruins e com problemas, e vai abrir mão de grandes empresas — que são negociadas a múltiplos mais altos porque são bons negócios.
P/VPA
Preço sobre Valor Patrimonial por Ação.
Compara o preço de mercado (atual) com o patrimônio líquido por ação (do ano anterior).
Além dos problemas citados anteriormente, esse indicador ainda tem um outro problema sério.
Nos FIIs, ele até faz algum sentido, pois você está comprando um conjunto de imóveis (ou títulos de dívida). Mas, nas ações, ele não faz o menor sentido. Se você quer comparar algo pra saber se tá “caro” ou “barato”, que pelo menos compare com a geração de caixa, que é o que traz retorno ao acionista, não com o patrimônio da empresa.
Empresas diferentes produzem com patrimônios completamente diferentes e têm estratégias distintas. Uma empresa de tecnologia pode ter P/VPA altíssimo (pois não exige tanto patrimônio na operação) e ainda assim ser um ótimo negócio; de outro lado, uma empresa do setor industrial pode ter um P/VPA baixo, mas não gerar lucro consistente.
O que importa em uma empresa é o valor que ela gera, não o patrimônio que ela usa pra gerar esse valor.
ROE / ROIC / ROA
ROE (Return On Equity), ROIC (Return On Invested Capital) e ROA (Return On Assets) são indicadores de rentabilidade.
O grande problema é que todos eles comparam a rentabilidade das empresas com o patrimônio líquido (ou com o Capital Investido, no caso do ROIC ou com os Ativos Totais, no caso do ROA — mas todos levam em conta o patrimônio líquido).
Aqui, a crítica continua a mesma: empresas não devem ser comparadas pelo seu patrimônio, mas sim pela sua geração de valor.
Margens
Margem bruta, margem EBITDA, margem líquida — todas medem quanto a empresa retém de cada real de receita em diferentes estágios.
Com as margens, você até consegue identificar em qual estágio a empresa foi mais ou menos eficiente, mas a resposta se ela gerou valor ou não é respondida simplesmente na análise de lucro líquido.
Se quiser ir nos mínimos detalhes e enxergar em qual estágio as Lojas Renner são mais eficientes do que a Guararapes, pode usar — mas se quiser simplesmente saber qual gera mais lucro, vai de lucro líquido sem medo.
Dividend Yield (DY): o indicador mais supervalorizado do mercado
Dividendos pagos no último ano sobre preço da ação.
Como já falamos no artigo sobre FIIs, esse é, literalmente, o indicador mais supervalorizado do mercado brasileiro — é sério.
Se você perguntar pros investidores, vai descobrir que 9 em cada 10 compram empresas só porque pagam dividendos — isso é um completo erro.
Vamos desmistificar isso:
- Dividendo não é brinde, ele é parte do lucro líquido que a empresa decide distribuir;
Após apurar o lucro do período, a empresa decide se irá distribuir esse lucro a você ou se vai investir no próprio negócio. Simples assim.
Quando a empresa anuncia o pagamento de dividendos, ela define uma data ‘com’ (último dia em que quem comprar a ação ainda tem direito a receber) e uma data ‘ex’ (a partir dela, quem comprar não tem mais direito ao dividendo daquele anúncio). Na data ex, o preço da ação cai exatamente o valor do dividendo anunciado.
Ou seja, você não ganhou dinheiro nenhum. O dinheiro saiu do caixa da empresa (que passou a valer menos por conta disso) e entrou na sua conta.
Traduzindo: se você tinha R$ 10 na empresa e ela pagou R$ 1 de dividendo, agora ela vale R$ 9 e você tem R$ 1 no bolso (10 = 9 + 1).
- O indicador DY leva em consideração o que a empresa pagou de dividendos no passado;
Não há como prever que o lucro da empresa será igual, nem que ela continuará a pagar esses mesmos dividendos.
- O indicador também leva em consideração o preço da ação hoje, comparando com os dividendos que já foram pagos;
E o que tem de errado nisso?
É simples, se a ação cair hoje de R$ 30 pra 20, os dividendos pagos no ano anterior continuarão os mesmos — logo, o DY vai aumentar.
Ou seja, a empresa piorou, porque vale menos, mas pela óptica do DY ela melhorou — não faz sentido.
- A empresa pode pagar dividendos de forma artificial, mesmo sem gerar caixa.
É isso mesmo. A empresa, mesmo em situações ruins, pode continuar a pagar os mesmos dividendos, pra fingir que “tá tudo bem”.
Isso já aconteceu no passado com OIBR3, PETR3, VIVT3 e diversas outras empresas.
Eu sei que é ótimo ver os dividendos caindo na conta — a sensação é incrível — mas não passa de ego, pois se a empresa reinvestir nela mesma e crescer e valer cada vez mais, o resultado será o mesmo que pegar parte do dinheiro e depositar na sua conta (talvez até melhor).
Payout
É o percentual do lucro que a empresa distribui como dividendo — esse sim é um indicador interessante.
Através desse indicador, você consegue enxergar se a empresa está distribuindo mais ou menos do seus lucros aos acionistas.
Vamos ver abaixo como isso funciona.
Ações de crescimento x ações de dividendos
Bom, primeiro vamos definir o que são empresas de crescimento e de dividendos.
Empresas de crescimento reinvestem boa parte do lucro na própria operação. Pagam poucos dividendos — ou nenhum — mas crescem de forma mais agressiva. Têm mais potencial de retorno no longo prazo, mas acompanha um risco mais elevado.
Empresas de dividendos são negócios maduros, estáveis, com receita previsível (geralmente empresas líderes de mercado) e que distribuem boa parte dos seus lucros. Aqui é o oposto, o potencial de retorno explosivo é menor, mas o risco também.
Aqui, não tem certo ou errado, tem o que faz sentido pra você:
- Investidores mais novos, que não estão na fase de usufruir do patrimônio ainda, podem ter uma parcela maior em empresas de crescimento, pois dará tempo dos negócios amadurecerem;
- Investidores com idade mais avançada, que já estão na fase de usufruir do patrimônio, vão querer uma previsibilidade maior, logo, optarão mais por empresas de dividendos.
Você não precisa ignorar uma ou outra, apenas dar pesos adequados, dependendo da sua realidade hoje.
O mito das vacas leiteiras
Existe um mito muito forte no Brasil de que só empresas que pagam dividendos gordos são boas — e que empresas de crescimento são especulação ou aposta.
Isso é um absurdo.
Weg e Raia Drogasil pagam dividendos modestos. No longo prazo, entregaram retorno que as “vacas leiteiras” jamais chegariam perto. No mercado americano, Apple e Amazon corroboram a mesma lógica.
Ignorar completamente ações de crescimento por causa do dividendo baixo é abrir mão de alguns dos melhores negócios da bolsa.
Nunca se esqueça disso: o futuro de toda boa ação de crescimento, é se tornar uma ação de dividendos.
O ideal é ter as duas. Equilíbrio, sempre.
Carteira de ações
Uma boa carteira de ações não é aquela com “as melhores ações”. É aquela com boas ações em setores diferentes, construída com consistência ao longo do tempo e que servem aos seus objetivos de vida.
Diversificação
Já escrevi um artigo inteiro sobre diversificação aqui no blog mas o resumo prático pra ações é simples:
- Diversifique no máximo de boas empresas que você consiga acompanhar;
- Diversifique em setores também;
- Não tem problema ter dois ou três bancos, três ou quatro empresas de energia elétrica — o que importa é ter empresas boas.
O que não faz sentido é concentrar demais tentando buscar “as melhores”. As melhores hoje, podem ser as piores amanhã; as medíocres hoje, podem ser as tenbaggers amanhã. O mercado é vivo, dinâmico, não estático.
Uma carteira com 5 ações numa crise vai te dar uma noite de sono muito pior do que uma com 30.
Conclusão
Ações não são pra quem quer enriquecer rápido. São pra quem entende que construir patrimônio leva tempo — e que o tempo é o maior aliado do investidor que sabe o que está fazendo.
Escolha boas empresas. Entenda como elas ganham dinheiro. Analise os números com consistência. Diversifique. E se segure nas crises.
No longo prazo, o mercado recompensa quem tem disciplina pra não sair quando a crise vem — e ela vai vir, em algum momento. Sempre vem, mas sempre vai embora.